Te declaro amor eterno
Nem um pedaço ou ao meio
Subindo ao céu ou descendo ao inferno
Meu amor será inteiro

Mesmo quando eu não puder caminhar
Ou o mundo ficar sem cor e feio
E se você para de respirar
Eu não vivo e nem floreio

E se eu de repente cair
Você me puxa antes do baqueio
Mas se eu mesmo assim me ferir
Você enxuga o sangue do meu joelho

Você é minha base, meu rumo, meu freio
É meu algoz é meu amigo
E quando eu não mais me reconhecer diante do espelho
Você a me acalmar, ajudar e ficar junto comigo

E se talvez eu adoecer e perder o cabelo
Só contigo eu consigo
Vencer o pesadelo e acordar em teu seio
Seguro e protegido

Te declaro amor eterno
Da cama ao te odeio
Dou fim ao meu inverno interno
Assim me entrego ao seu enleio



Ao teatro de tragédias eu me submeti
A morte
Meu pescoço na lâmina afiada
Rasgando a carne em profundos cortes
Para sobreviver eu fugi

Um lamaçal de ardume
Sem esperança de voltar
Apagando em negrume
Ceguei o meu olhar

Tuas mãos a me degenerar
O teu silêncio engasgou meus gritos
Como posso sonhar?
Falar do que passou e não mais existo

Mentir e fingir que superei não consigo
Para mim a cortina se fechou
No fim não existe palmas, nem riso
O espetáculo enfim se findou






Como um pêndulo cansado de tanto rodar
Eu paro de dar voltas
Acalmo o meu olhar
Pois, nem quase tudo tem respostas

Como uma criança que da mãe se perde
Me ponho a chorar
Feito peixe morto em lodo verde
Sem mais espaço para nadar

No delicado abismo do não ser
Afogado até o pescoço em desordem
Meus pés em limo a afundar
É lá onde me aqueço e esqueço

Feito Ofélia quando mata o filhote por amor
Como quem acorda de um suicídio em pavor
Desperto do sono e percebo
Eu também mal me conheço


O sol para mim costumava ser quente
Agora tudo que toco é seco e frio
E se eu pudesse faria tudo diferente
Você é o único que pode ocupar o vazio

Meu amor, meu bem, minha flor
Estamos tão assustados
O céu para nós arde em dor
Como esquecer o passado?

Ninguém pode te amar como eu te amo
Na escuridão minhas lágrimas clamam por ti
E já vai fazer um ano
Eu sei que tu pode me ouvir, me sentir

E quem vai poder nos salvar
Deste mundo implacável
Da vergonha, da ausência miserável
Não podemos escapar

Nada vai ser como antes
Mas posso ser bom o bastante
Jamais vamos encontrar conforto
Sem nos apoiar um ao outro



Por tanto tempo eu nadei
Em teus olhos me afoguei
Contra tudo e todos eu lutei
No lugar mais escuro parei e fiquei

Uma implacável força me derrubou
Em queda livre ainda estou
O choque e o medo me paralisou
Sinto que tudo em mim mudou

Como é cruel a espera de quem nunca vem
Menos que se quer é o que se tem
Nenhum toque ou resposta, ninguém
Eu sei que você mudou também

Eu não posso ser de outro alguém

Meu corpo e alma ainda são teus
Príncipe de mim tu esqueceu
E o que me prometeu?
Um absoluto e sinuoso nada aconteceu

E quem sou eu nessa história?
Aquele que perdeu
Sem glória, sem vitória
Sem romeu





Andando sinto a ansiedade
Dos passos de velhos, pobres e ricos
Que se perdem na cidade
E ecoam em meio a edifícios

Há tanto tempo esquecidos à margem
Lutando contra a impossibilidade
O suor que pinga na engrenagem
Mistura  de dor, coragem e vontade

A criança já nasce velha
Não existe espaço para o novo
Qual o preço da matéria?
Quem vai olhar por este povo?

Com o troco de uma passagem
Transeuntes vem e vão
As mãos calejadas de tanta bagagem
Esperam o trem na estação

O percurso se arrasta lento
Os olhos rígidos de tanto esperar
Cansado é o lamento
De quem não tem mais tempo para florear


Meio dia
Cruzeiro das almas, suor, desespero
O manto negro seu semblante escondia
No bolso velas e esqueiro

Raiva, ciganos, navalhas, cigarros
Uma prece manda recados ao desconhecido
De sangue o mármore é lavado
Para alimentar a boca do falecido

Murmúrio, eflúvio putrefato
O hálito faz subir a fumaça
As mãos seguram o retrato
Um último gole de cachaça

Silêncio, esperança e reza
Para os mortos com suplício dança
No chão balança e queima ervas
Em três dias do caixão o corpo levanta