A Síria apita com seu sol vermelho
O espelho estilhaça
A cidade alarde em grossas chamas
E pinta de rubro o tom dos seus cabelos
Quanto tempo resta as nossas carcaças?
Por que se esconde por dentro?
E não se rende a doce ameaça
O céu entoa o desastre
O vento o leva aos seus limites
E eleva os sinais antes que te arraste
Inevitável é a queda
Silenciando quimeras tristes
Que o lançam para o outro lado
Não o renomeie quando ele não pode ser pronunciado
Não o despreze quando ele estiver despido
Não o machuque quando ele germinar
Não enterre os seus gemidos
Não sufoque seu coração feito de mármore
Não profane sua árvore de adoração
Não crie barreiras quando ele sangrar
Não o avise quando ele quebrar as paredes da compreensão
Não o pise quando chegar ao chão
Não o mate em luvas de cetim, pois só o acalmarão





O rio já não é mais o mesmo
Abaixo das ondas, nas margens
De quando eu me deito
E com a força do tempo
Resvalando no seu leito
Modificando a paisagem
Restaurando o meu peito
Ensinando-me novamente a respirar
Faz tempo...
Eu sei a última vez que fui
Que tanto tardei para voltar
Só precisava me curar
Das curvas, que a vida nos dá
De tentar consegui
A correnteza me trouxe de volta
Imaculado de brio e fogo
Que aos poucos da minha voz transborda
E inunda vias e veias de novo
Este rio já não é mais o mesmo
Pois, feito água, já me tornei outro




As luzes confundem
Você realmente quis me conhecer
Então por que se esconde?
O silêncio que devasta
E nos arrasta...
Na túnica pálida que envolve a manhã
A linha foi traçada
O confronto está próximo
Do outro lado vejo ele se partir
O júri se tornou o tempo
Aquela tez agora veste mármore
A esperança espera por descanso
Um poeta dos campos elísios
Exilado nas brumas da delusão
Recuse a se render
Você pode me estender à mão?
Tão alto que foge da sua compreensão
Você tentou me entender
Esperamos costurar tudo
Mas estamos tão devastados
Das lutas de outrora
Para onde se foi à glória?
Qual o seu melhor refúgio?
Encobrimos nossos sonhos e abusos
Nos olhos cálidos da aurora




A linha foi traçada
São seis passos
Sete palmos
Meus olhos vermelhos
Já faz tanto tempo
Lançado na masmorra do esquecimento
Que não consigo mais me enxergar no espelho
Cronos lança seu martelo aos meus joelhos
O caminho é turvo, a noite não alenta
O frio quebra meus ossos como finos gravetos
A vida se esvai em tortuosas curvas
Nem a chuva à minha tisga alma alimenta
Fatigada é a melodia que urra da minha lira
Fatídica é a fúria em busca da cura
Dos lençóis de ébano que agora vestem o meu passado
Encubro meu coração do láudano soberano
Subo no alto dos meus mais vastos quintais
Mergulho no caustico pântano dos ocidentais
Estratégico, miraculoso, nefasto
Introjeto a peçonha, inalo metano
Inumano sigo a caminhada lúgubre dos mortais

Seis passos...