A pior dor é nada sentir.


Um lençol manchado de sangue
As luzes da cidade assustam
Esvoaçante, transfigurada,  sufocante
Feito fumaça os carros passam
Sem qualquer direção
Eles se jogam na noite
Turva e amarelada
Pintada de neon
Entre as curvas da estrada

A lua dança em negrume
Queimando freneticamente
O desejo de quem não assume
Das esquinas ainda é perambulante
Perfeitamente estático na surdina
Propício daqueles que não tem costume

A noite este grande museu
Fervendo línguas alucinantes
De fado e vício
Revela o tempo cada vez mais lento
Sem respostas em desperdício

Qual a diferença em se desconhecer?
 Querer viver um segundo ou cem anos
 Pois muitos morrem ao nascer
A grande maioria simbolicamente
Sem sentir gostos diferentes
Sem se sentir, sem ser

Hoje dos olhos verteram lágrimas
Por aqueles que encontraram na fuga
A melhor maneira de não sentir nada
Mesmo assim aquele olhar fatigado encontra beleza
Ao ver tantas rugas desnecessárias em jovens asas


Elevamos o nosso olhar, mas vemos nas mesmas estrelas coisas tão diferentes.

Eu gosto da sombra
Quando ela me assombra
Se ela soma
ou subtrai
Ela mais some do que fica
Quando olho
Ela insone
Eu tento voltar
a me contorcer
Só para ver
O seu lumiar decomposto
Em disparate ela sai
E me deixa solto
Eu sigo resignado e sem condições
Surdo, cego, roto
A mercê das emoções
do que fui um dia
Que já não mais sou
Queimando em agonia
Compensando as pulsações
Ao qual meu olhar não acompanha
A sombra esta íngreme moradia
Que por séculos me fez companhia
Por ter medo de me expor
Mas que aos poucos descama
Solto como o vento
Ao bater alquebrado em minha cama
Pois desacredito
Do lustroso tato maldito
infundado
Do teu malquerer mergulhado
em lama salobra
Que quebra
A vértebra exposta
Profundamente sombra
Aprendi
Hoje me tornei outro




Queríamos reconhecer a verdade,
mas tudo foi encoberto
Pela ambição de um ditador
Nos meandros de um coração frio

Palavras soltas de uma boca dissimulada
Que nos seduzia
A cada dia com um disfarce novo

Um monstro dotado de belos gestos
Que aos poucos nos engolia
Em injustas ordens ele nos dominava

Crescemos resignados
Até o dia em que nos vimos obrigados a lutar
Precisávamos descobrir o segredo

Enfim mais um vez falhamos
E como castigo
 Um infame e triste castigo

Ele nos obrigou a abandonar o nosso reino
Fazendo-nos acreditar em mais mentiras,
nos envenenou,
com seu ódio, seu rancor

Por séculos o nosso povo sofreu,
entre sangue e dor
Pensávamos que o seu poder era maior que o nosso,
então nos escondemos por medo
nas frias sombras do vale

Agora precisamos encontrar novamente o elo perdido
Para termos de volta tudo aquilo que do passado nos foi tomado,
e o mais sagrado...
Libertar nossas vidas desvelando o segredo